quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Desafios


Acontecem quando menos esperamos, verdadeiramente. 
Chegam com força. Uma força que nos arrebata, que nos deixa pequenos e conscientes da nossa pequenez.
Os desafios são etapas, momentos. Fronteiras ou barreiras, pedras e flores no caminho.
Não dependem de nada, a não ser de nós. 
Se tivermos a ousadia e a coragem suficientes para enfrentá-los, não baixaremos os olhos, a cabeça, o coração, os braços. 
Seguiremos em frente. Não contra eles mas com eles.
Se os levarmos na bagagem, seremos maiores e melhores, por dentro e por fora. 
Transbordaremos a garra e a vontade de fazer bem feito e diferente. 
Se os ultrapassarmos, superamo-nos a nós próprios e até nos conhecemos melhor. 
Descobrimos, às vezes sem querer, as nossas leis, capacidades e limitações.

O medo, a insegurança e a dúvida acompanham-me para todo o lado. Estão presentes desde da hora em que acordo à hora que me deito. Mas é também com eles que subo ao topo, na alegria de um trabalho bem feito, de um elogio repentino ou de uma responsabilidade inesperada.
É com orgulho e sabedoria que provo um pouco da minha maturidade. 
É com um sorriso e as mãos geladas que aproveito, divirto-me e me conheço. 
É com rigor e humildade que respiro fundo e começo tudo outra vez, se for preciso, se me enganar.
A mudança dói, desconforta, estranha. Uns dias depois já parece outra. No fim de tudo, faz crescer.
Venham eles e elas.
Venham mais desafios. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Valência


Parece mentira, mas voltei. Um ano depois.
Há quem diga para não voltar ao lugar onde já fomos felizes. E sim, fui feliz, muito feliz. Talvez uma felicidade inconsciente, inconstante, inesperada mas verdadeira. É de facto um risco voltar. Um risco grande. Tão grande como o amor a uma cidade que me encantou. Vi-a no mapa como algo distante, muita terra nos separava. Depois veio o céu aberto, o sol a entrar pela janela, a música ao vivo à porta do metro, os jardins que não acabavam, os diálogos rápidos, os risos altos, a comida em pratos pequenos. Coisas que guardo.
Hoje ao passear por estas ruas, que têm tanto de minhas como de qualquer outra pessoa que se apaixonou por elas, recordo como eram nos meses em que aqui vivi. Recordo a Maria que passou por elas. Às vezes com pressa, às vezes sozinha.
Aos 19 anos tinha uma certeza: mal poria os pés fora da cama, de casa, seria uma descoberta. A minha descoberta, não a que contaram ou a que poderia imaginar. Todos os dias, em seis meses, aprendi algo. 
Hoje volto, e sou o resultado de tudo o que comi, cheirei e fotografei. Hoje já conheço e por isso reconheço, e reconheço-me em cada esquina. Uma língua diferente. Ruas diferentes, horários diferentes, jornais diferentes. Pessoas que conheci, que ouvi, que olhei, com que me cruzei, com quem aprendi, tanto. Muitas não sei onde param, provavelmente numa outra aventura qualquer, outras reencontrei com um grande sorriso e um abraço que me deixou sem ar e sem palavras. 
É bom. É muito bom voltar. Mesmo que não saibamos o que vamos encontrar. Se a padaria mudou de empregado, se faz mais frio ou se o preço do bilhete do metro subiu. Não importa. 
Os novos, os velhos, os hábitos, trago-os agora reforçados e mais pesados na mochila, mais vivos na minha memória e bem mais fortes no coração. 
Sei que voltarei, não sei quando mas sei que quando eu quiser, voltarei. Reencontrarei para sempre um tempo, um lugar e uma etapa, que é minha e de um canto em Espanha chamado Valência.