Porque tenho memória de elefante?
Já me perguntei por isto muitas
vezes e não me lembro de ter chegado a uma resposta.
A verdade é que tenho a facilidade,
a divindade ou simplesmente a chatice de reter o mais ínfimo pormenor das
coisas estúpidas, dos olhares indiscretos, dos gestos inadequados ou das
palavras trocadas.
Coisas que passam ao lado, coisas que acontecem e não deviam
acontecer.
Coisas que guardo em gavetas, coisas que cheiram a mofo.
Não são apenas coisas. São as minhas coisas.
O tempo de parar e pensar leva-me a voar para outro tempo, outro
lugar e outra companhia.
Lembro-me bem de companhias, de cheiros, de sons e sorrisos misturados
com imagens desfocadas que teimam em não me largar.
Lembro-me da inocência, da adolescência e da paciência.
Lembro-me
de trabalhos, de encargos e cuidados.
Lembro de lições, canções e encontrões.
Dias, noites, páginas de livros, refrões soletrados ou abraços
apertados.
Quando a fase é má, o tempo é de chuva ou o dia para esquecer,
penso que ainda vou ter saudades disso. Porquê? Porque só sentimos saudades do que
nos lembramos.
Quem lembra fica. Quem recorda cresce. Quem cresce aprende que
nada é inteiro na eternidade.
Nada é absoluto nas figuras que a cabeça faz questão de guardar ou que a vida faz questão em diluir.
Ter memória é ter poder. Um poder sábio que sabe a coerência e a rectidão.
Não deito fora. Aproveito e reciclo tudo o que encontro no meu
desencontro.
Para quê?
Para os meus dias de chuva que hão-de-vir.