domingo, 16 de novembro de 2014

Lisboa

Amor, ódio. Apego, desapego. Bonita, feia.
É nesta guerra e nesta paz que te vejo, que te sinto, que te quero.
És dona do meu Verão e da minha despreocupação.
És trabalho, és lazer, és aquilo que eu quiser.
Eras sonho, desejo e ambição. Hoje és escape, arejo e gratidão.
Levaste-me amigos, paixões, amores e desamores. 
Deste-me música, teatro, viagem e paisagem.

Enchi-te das minhas lágrimas e dos meus sorrisos. 
Ouviste os meus botões cheios de segredos e confissões.
Tanto te recebo de braços abertos como te viro a cara na despedida.
Em cada visita te olho diferente e de frente. 
Em cada encontro há cheiro a saudade. Em cada chegada sou mais eu.

Em ti o vinho nas escadas sabe melhor, uma conversa à varanda sabe melhor.
Tens ligações e corações que me pertencem e não se acabam quando te deixo.
Em ti cabe o novo e o antigo. Cabem os anos e os laços. Cabem os abraços sem fim.
Perco-me sempre em ti. Mais sozinha e mais acompanhada. 

Contigo aprendi e arrependi. Contigo tenho toda a lata do mundo, tenho toda a curiosidade do mundo, tenho toda a esperança do mundo.
Tens a memória de noites em claro, de conversas em dia e de pontos nos i’s.
Sabes a adolescência, a aventura e a incerteza.

És uma esquina, uma sardinha, um café e um pontapé.
Soas a fado e a confusão. Silêncio e contradição.
És uma rua plana que não acaba. Uma luz que não se apaga.

És o meu intervalo. Quebras o quotidiano das horas certas para comer e a rotina das escolhas certas para fazer.
Foste primeiras vezes descobertas e indiscretas. 
Andamos de mãos dadas e de costas voltadas.

Os teus tesouros e as tuas histórias não têm as minhas raízes mas fazem-me felizes. 
Pelo menos o suficiente para me fazer voltar. Sempre.

domingo, 17 de agosto de 2014

AZ

Já perdi a conta.
A conta das vezes que vos ouvi, dos refrões que repeti, dos concertos que vi, das palmas que bati.
Não sei bem como começou, mas sei que foi há muito. E que hoje é muito.

Lembro-me de ouvir a primeira música num mp3 de uma colega no recreio da escola. Como não tinha um, era obrigatório sujeitar-me à playlist alheia. Um certo dia o aparelho ficou esquecido na minha mochila. Devolvi-o, claro, no dia seguinte, mas durante as 24h que o tive em meu poder decorei a letra de “Zão”, de tantas vezes soar ao volume 9 nos meus ouvidos.
A partir daí foi tudo tão rápido como o número de silabas que encontrei nessa letra.

Cresci convosco quando ainda não havia site, músicas decoradas ou amigos a gostar. Mas lá ia eu, muitas vezes sozinha, não sei bem porquê. Aos concertos intimistas no Porto ou aos sítios que ainda não idade tinha para poder entrar. Mas ia, não sei bem porquê.

Hoje sei que convenci muitos a irem comigo e a espreitar a vossa originalidade, o vosso humor, a vossa verdade. Hoje sei que foram a primeira banda que me fez arrepiar, comer à pressa e roer a unhas.

Conheço a primeira nota de cada música, orgulho-me de cada passo que dão.

Mais que admirar falo de vós, muito. Hoje escrevo porque sei que não me irei arrepender. 
E não, não preciso de cd’s, de fotografias, de autógrafos, de cartazes ou de gritos para me sentir da velha-guarda.

A primeira fila quase nunca foi minha mas é minha a adrenalina gigante quando a primeira luz do candeeiro se acende. 

Sei que muitos e muitas mais virão e que perderei sempre a conta de vos contar. 
Não interessa.
Prefiro cantar, mesmo desafinando.

domingo, 1 de junho de 2014

Depois

Sim, foi rápido e depois?
Caímos de para-quedas e depois?
Não combinei, não imaginei, não idealizei e depois?
Se mudei, se cresci, se descobri? Ganhei.
Não recusei, não virei a cara, não disse nunca.
Se estava à espera? Não.
Se já merecia? Sim.
Bateu fundo e bateu certo.
Foi fácil, tão fácil e soube bem.
Foi sol a nascer e a pousar. Foi o Douro a acompanhar.
Foi não, é.
Se vai correr bem? Não sei.
Se vai durar? Talvez.
Se já marcou é porque mexeu.
Se há saudade é porque há verdade.
Se há abraço é porque não há cansaço.
Juntou-se um sorriso às minhas covinhas, uma mão à minha mão esquerda e o resultado é isto e é forte. E depois? Oh depois não demores muito, não te faças de difícil, não sejas menino e faz-me feliz. 
Como ele. 

sábado, 15 de março de 2014

Porto

És berço, identidade, verdade e liberdade.
És o primeiro, o melhor, o mais reconfortante.
És o passar a ponte, o chegar a casa.
És a cultura nas veias, a história das/nas esquinas, o rio que encharca as memórias.
És passado nos livros, gritos desmedidos, palavrões nos bolsos.
És choro no aeroporto.
És novo e velho.
És homem do leme que conduz a lua cheia.
És balão, martelo e um copo na mão.
És cheiro, recreio e anseio.
És o molho picante, a rabanada gigante e um fino gelado.
És ribeira de avental sujo e mão na anca.
És peixe salgado, vidro molhado.
És sol quando queres e chuva quando não espero.
És rocha no mar e granito na terra.
És o subir da rua, minha e tua.
És areia pesada e sardinha assada.
És João, de família.
És natureza nas manhãs e nas noitadas.
És corrida e solidão.
És trabalho, paixão e inspiração, no coração.
És bairro na talha da vida desprevenida.
És entrega, vinho e abrigo no caminho.
És despedida, saudade, herança e bonança.
És loucura, orgulho, coragem e desejo.
És fiel, leal, genial.
És de todas as cores e de todas as calmas.
És silêncio e hino.
És puro e és meu.
És o meu porto final.