segunda-feira, 15 de abril de 2013

Nuno


Pelo nome podias ser irmão. Mas não.
Quem olha para nós repara que somos a antítese um do outro. Em quase tudo. Quase, porque no essencial somos parecidos, iguais.
Pensas e imaginas o que eu nunca diria. Fazes o que eu nunca faria.
Eras um estranho com muita fama e muito fumo. Hoje és amigo, dos melhores. 
Aos poucos soletramos, falamos e conhecemo-nos.
Olhas para mim como ninguém olha. Falas de mim como ninguém fala. Apoias-me, a sério. 
Descomplicas a minha cabeça complicada. Aturas-me mais que a minha almofada. Ouves-me mais que as paredes do meu quarto.
A tua tranquilidade enerva-me e contagia-me. A tua calma ensina-me a ser mais como tu.
Optimismo é o teu lema e a tua lealdade fortalece-me na sinceridade a que me habituas-te.
Almoços, pequenos-almoços, lanches, cafés, esplanadas, escaldões, aventuras e caminhos, são experiências que já ninguém nos tira.
O que aparentemente era fraco e antigamente era estranho, hoje move-me e comove-me.
És confidente, paciente e diferente. És criança, adulto e maduro.
Puxas-me as orelhas, segredas ao ouvido, tens abraços com sabor a bolo de chocolate ou a scones mornos.
És Inverno e Verão, és faculdade, posteridade e verdade.
Posso não saber nada de nada mas tenho a certeza que és dos bons.

domingo, 14 de abril de 2013

Bairro


Mandaram-me para uma realidade diferente da minha.
Por obra do destino, e do meu trabalho, fui lá parar. 
Numa manhã cinzenta e gelada, sabia que algo de muito estranho, anormal e artificial iria acontecer ali, mesmo à minha frente.
No ar pairavam o desconforto, a tristeza, a revolta e a descriminação de ser de ali. 
Senti de perto, de muito perto, o confronto do olhar, o desfazer de recordações, a raiva de não poder fazer nada perante a polícia, as grades e a terra.
Senti o chão a tremer, a chuva de pó a cair e as lágrimas que se misturavam com os gritos de desespero.
Vi cacos de memórias, blocos de cimento com fúria e pedaços de tempo perdido, agora nunca esquecido, diziam.
Para lá da razão, havia coração. Perplexidade de uma verdade que ali fazia a história de uma cidade, a minha.
Trabalho é trabalho. Mas ali o meu trabalho diluiu-se na reflexão, cruzou-se com o medo e concluiu-se na admiração das pessoas.
Gente que forma e transforma um bairro duro e gelado. Um sítio cheio de crimes e sacrifícios, cheio de desespero e desapego. 

Não lhe pertenço, mas ele passou por mim e tocou-me.