quinta-feira, 25 de julho de 2013

Teresa

Foi há um ano e parece que foi ontem.

A cumplicidade imediata, o sorriso fácil e as palavras certas.

Parece que foi ontem. As confidências, os olhares intuitivos, os telefonemas dramáticos ou os refrões cantados em coro, onde as nossas vozes se confundiam na alegria.

Parece que foi ontem. Os abraços sinceros, as conversas longas, os cafés demorados e os cigarros mal apagados.

Parece que foi ontem. Os conselhos duros de ouvir, as opiniões divididas, as razões prevalecidas e os passeios inesquecíveis.

Parece que foi ontem. As noitadas a dançar, os jogos de adrenalina, as dúvidas existenciais e as mil e uma coisas em comum.

Nada mudou, melhorou. E a amizade ficou.


Parabéns!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Memória

Porque tenho memória de elefante? 
Já me perguntei por isto muitas vezes e não me lembro de ter chegado a uma resposta. 
A verdade é que tenho a facilidade, a divindade ou simplesmente a chatice de reter o mais ínfimo pormenor das coisas estúpidas, dos olhares indiscretos, dos gestos inadequados ou das palavras trocadas.
Coisas que passam ao lado, coisas que acontecem e não deviam acontecer.
Coisas que guardo em gavetas, coisas que cheiram a mofo.
Não são apenas coisas. São as minhas coisas.

O tempo de parar e pensar leva-me a voar para outro tempo, outro lugar e outra companhia.
Lembro-me bem de companhias, de cheiros, de sons e sorrisos misturados com imagens desfocadas que teimam em não me largar.
Lembro-me da inocência, da adolescência e da paciência. 
Lembro-me de trabalhos, de encargos e cuidados.
Lembro de lições, canções e encontrões.
Dias, noites, páginas de livros, refrões soletrados ou abraços apertados.

Quando a fase é má, o tempo é de chuva ou o dia para esquecer, penso que ainda vou ter saudades disso. Porquê? Porque só sentimos saudades do que nos lembramos.
Quem lembra fica. Quem recorda cresce. Quem cresce aprende que nada é inteiro na eternidade. 
Nada é absoluto nas figuras que a cabeça faz questão de guardar ou que a vida faz questão em diluir.
Ter memória é ter poder. Um poder sábio que sabe a coerência e a rectidão.
Não deito fora. Aproveito e reciclo tudo o que encontro no meu desencontro.
Para quê?
Para os meus dias de chuva que hão-de-vir. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Nuno


Pelo nome podias ser irmão. Mas não.
Quem olha para nós repara que somos a antítese um do outro. Em quase tudo. Quase, porque no essencial somos parecidos, iguais.
Pensas e imaginas o que eu nunca diria. Fazes o que eu nunca faria.
Eras um estranho com muita fama e muito fumo. Hoje és amigo, dos melhores. 
Aos poucos soletramos, falamos e conhecemo-nos.
Olhas para mim como ninguém olha. Falas de mim como ninguém fala. Apoias-me, a sério. 
Descomplicas a minha cabeça complicada. Aturas-me mais que a minha almofada. Ouves-me mais que as paredes do meu quarto.
A tua tranquilidade enerva-me e contagia-me. A tua calma ensina-me a ser mais como tu.
Optimismo é o teu lema e a tua lealdade fortalece-me na sinceridade a que me habituas-te.
Almoços, pequenos-almoços, lanches, cafés, esplanadas, escaldões, aventuras e caminhos, são experiências que já ninguém nos tira.
O que aparentemente era fraco e antigamente era estranho, hoje move-me e comove-me.
És confidente, paciente e diferente. És criança, adulto e maduro.
Puxas-me as orelhas, segredas ao ouvido, tens abraços com sabor a bolo de chocolate ou a scones mornos.
És Inverno e Verão, és faculdade, posteridade e verdade.
Posso não saber nada de nada mas tenho a certeza que és dos bons.

domingo, 14 de abril de 2013

Bairro


Mandaram-me para uma realidade diferente da minha.
Por obra do destino, e do meu trabalho, fui lá parar. 
Numa manhã cinzenta e gelada, sabia que algo de muito estranho, anormal e artificial iria acontecer ali, mesmo à minha frente.
No ar pairavam o desconforto, a tristeza, a revolta e a descriminação de ser de ali. 
Senti de perto, de muito perto, o confronto do olhar, o desfazer de recordações, a raiva de não poder fazer nada perante a polícia, as grades e a terra.
Senti o chão a tremer, a chuva de pó a cair e as lágrimas que se misturavam com os gritos de desespero.
Vi cacos de memórias, blocos de cimento com fúria e pedaços de tempo perdido, agora nunca esquecido, diziam.
Para lá da razão, havia coração. Perplexidade de uma verdade que ali fazia a história de uma cidade, a minha.
Trabalho é trabalho. Mas ali o meu trabalho diluiu-se na reflexão, cruzou-se com o medo e concluiu-se na admiração das pessoas.
Gente que forma e transforma um bairro duro e gelado. Um sítio cheio de crimes e sacrifícios, cheio de desespero e desapego. 

Não lhe pertenço, mas ele passou por mim e tocou-me. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Desafios


Acontecem quando menos esperamos, verdadeiramente. 
Chegam com força. Uma força que nos arrebata, que nos deixa pequenos e conscientes da nossa pequenez.
Os desafios são etapas, momentos. Fronteiras ou barreiras, pedras e flores no caminho.
Não dependem de nada, a não ser de nós. 
Se tivermos a ousadia e a coragem suficientes para enfrentá-los, não baixaremos os olhos, a cabeça, o coração, os braços. 
Seguiremos em frente. Não contra eles mas com eles.
Se os levarmos na bagagem, seremos maiores e melhores, por dentro e por fora. 
Transbordaremos a garra e a vontade de fazer bem feito e diferente. 
Se os ultrapassarmos, superamo-nos a nós próprios e até nos conhecemos melhor. 
Descobrimos, às vezes sem querer, as nossas leis, capacidades e limitações.

O medo, a insegurança e a dúvida acompanham-me para todo o lado. Estão presentes desde da hora em que acordo à hora que me deito. Mas é também com eles que subo ao topo, na alegria de um trabalho bem feito, de um elogio repentino ou de uma responsabilidade inesperada.
É com orgulho e sabedoria que provo um pouco da minha maturidade. 
É com um sorriso e as mãos geladas que aproveito, divirto-me e me conheço. 
É com rigor e humildade que respiro fundo e começo tudo outra vez, se for preciso, se me enganar.
A mudança dói, desconforta, estranha. Uns dias depois já parece outra. No fim de tudo, faz crescer.
Venham eles e elas.
Venham mais desafios. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Valência


Parece mentira, mas voltei. Um ano depois.
Há quem diga para não voltar ao lugar onde já fomos felizes. E sim, fui feliz, muito feliz. Talvez uma felicidade inconsciente, inconstante, inesperada mas verdadeira. É de facto um risco voltar. Um risco grande. Tão grande como o amor a uma cidade que me encantou. Vi-a no mapa como algo distante, muita terra nos separava. Depois veio o céu aberto, o sol a entrar pela janela, a música ao vivo à porta do metro, os jardins que não acabavam, os diálogos rápidos, os risos altos, a comida em pratos pequenos. Coisas que guardo.
Hoje ao passear por estas ruas, que têm tanto de minhas como de qualquer outra pessoa que se apaixonou por elas, recordo como eram nos meses em que aqui vivi. Recordo a Maria que passou por elas. Às vezes com pressa, às vezes sozinha.
Aos 19 anos tinha uma certeza: mal poria os pés fora da cama, de casa, seria uma descoberta. A minha descoberta, não a que contaram ou a que poderia imaginar. Todos os dias, em seis meses, aprendi algo. 
Hoje volto, e sou o resultado de tudo o que comi, cheirei e fotografei. Hoje já conheço e por isso reconheço, e reconheço-me em cada esquina. Uma língua diferente. Ruas diferentes, horários diferentes, jornais diferentes. Pessoas que conheci, que ouvi, que olhei, com que me cruzei, com quem aprendi, tanto. Muitas não sei onde param, provavelmente numa outra aventura qualquer, outras reencontrei com um grande sorriso e um abraço que me deixou sem ar e sem palavras. 
É bom. É muito bom voltar. Mesmo que não saibamos o que vamos encontrar. Se a padaria mudou de empregado, se faz mais frio ou se o preço do bilhete do metro subiu. Não importa. 
Os novos, os velhos, os hábitos, trago-os agora reforçados e mais pesados na mochila, mais vivos na minha memória e bem mais fortes no coração. 
Sei que voltarei, não sei quando mas sei que quando eu quiser, voltarei. Reencontrarei para sempre um tempo, um lugar e uma etapa, que é minha e de um canto em Espanha chamado Valência.  

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Chuva


Podes ser romântica, quente e necessária, mas eu não gosto de ti.
Podes molhar, inundar e refrescar, mas eu não gosto de ti.
Podes alimentar, fazer sonhar e aconchegar, mas eu não gosto de ti.
Podes aliviar, acompanhar e acalmar, mas eu não gosto de ti.
Podes inspirar, abençoar e fazer amar, mas eu não gosto de ti.
Podes relaxar, ajudar e excitar, mas eu não gosto de ti.
Arrepias, escureces, deprimes. Provocas, aborreces, incomodas.
E é por isso que eu não gosto de ti.