Parece mentira, mas
voltei. Um ano depois.
Há quem diga para não
voltar ao lugar onde já fomos felizes. E sim, fui feliz, muito feliz. Talvez uma
felicidade inconsciente, inconstante, inesperada mas verdadeira. É de facto um risco voltar. Um risco grande. Tão grande como o amor a uma cidade que me encantou. Vi-a no mapa como algo distante, muita terra nos separava. Depois veio o céu aberto, o sol a entrar pela janela, a música ao vivo à porta do
metro, os jardins que não acabavam, os diálogos rápidos, os risos altos, a comida em pratos pequenos. Coisas que
guardo.
Hoje ao passear por estas
ruas, que têm tanto de minhas como de qualquer outra pessoa que se apaixonou por
elas, recordo como eram nos meses em que aqui vivi. Recordo a Maria que passou por elas. Às vezes com pressa, às vezes sozinha.
Aos 19 anos tinha uma certeza: mal poria os pés fora da cama, de casa, seria uma descoberta. A minha
descoberta, não a que contaram ou a que poderia imaginar. Todos os dias, em seis meses, aprendi algo.
Hoje volto, e sou o
resultado de tudo o que comi, cheirei e fotografei. Hoje já conheço e por isso reconheço, e reconheço-me
em cada esquina. Uma língua diferente. Ruas diferentes, horários diferentes, jornais diferentes. Pessoas que conheci, que ouvi, que olhei, com que me cruzei, com quem aprendi, tanto. Muitas não sei onde param, provavelmente numa outra aventura qualquer,
outras reencontrei com um grande sorriso e um abraço que me deixou sem ar e sem palavras.
É
bom. É muito bom voltar. Mesmo que não saibamos o que vamos encontrar. Se a padaria
mudou de empregado, se faz mais frio ou se o preço do bilhete do metro subiu.
Não importa.
Os novos, os velhos, os hábitos, trago-os agora reforçados e mais pesados na
mochila, mais vivos na minha memória e bem mais fortes no coração.
Sei que voltarei, não sei quando mas sei que
quando eu quiser, voltarei. Reencontrarei para sempre um tempo, um lugar e uma etapa, que é
minha e de um canto em Espanha chamado Valência.